O TEATRO DOS MEUS SONHOS
Entenderei
um dia essa nossa vida de caminhar sozinho pra encontrar vazio um buraco cheio
d'água. Entenderei um dia essa nossa sina de vagar perdido achando que é mais
fácil chorar lágrimas de crocodilo do que ligar do orelhão da esquina e dizer:
tenho saudades.
Entenderei
um dia esse nosso guia que ensina que rimas assustam e desviam e que não são apenas palavras e jograis
bacanas, como pessoas bacanas.
Disso
entenderei um dia.
Do
amor entenderei, de querer entenderei, de não telefonar entenderei.
De
não atravessar a rua para comprar cartões telefônicos nesse dia de outono para
dizer: tenho saudade,... não entenderei nesse minuto. Pode ser outro dia. Favor
deixar recado no próximo sinal.
Agora
tenho mensagens, memórias, impossibilidades, quilômetros para dirigir.
Quando
esta história estiver sendo contada no palco de um teatro de porão e você
estiver sentada em uma das fileiras como nobre espectadora -- assim entenderei
-- assim estenderemos nossos possíveis planos que nunca foram contados nem para
nós mesmas: eu como boba da corte, você na realeza dos bichos de sete cabeças.
Entenderei
um dia essa mania de chamar pessoas de humanidade, quando distancia não passa
de longínquos bairros e perdemos o mais simplório sentido do querer.
O
que é um cartão de telefone, mesmo? Porque eu ia dizer... tenho saudades?
Se
eu me esqueço da pessoa...e essa humanidade que consegue deletar arquivos tão
rapidamente quanto colocar o lixo pra fora de casa ou levar o cão pra passear
na praça e vegeta...
...consciência
é um privilégio ou um engano meu?
E
agora é aquela que escreve essas letras tortas para aqueles que um dia
disseram...sensibilidade é caro demais, tem preço.
Eu
me lembro, por isso um dia entenderei e, sinto muito, meu bem, se esse é o teatro
dos meus sonhos, e para você não tem papel.